interrupção
14 de outubro de 2016 | 7:26 PM | 1 comentários

Era uma vez Clarabella e ela, ao contrário do nome, não era bela e não tinha clareza sobre nada em sua vida. Era má irmã, má amiga, má namorada e um desastre como filha, isto era porque, constantemente cometia erros que os outros não podiam ignorar e sempre que eles aconteciam, ela se chicoteava e miúda, escondia o rosto na sua pequenez e se mostrava ainda menos bela do que antes parecia.
         Por vezes, ela sentiu como se fosse, uma peça que veio sobrando na caixa do quebra-cabeça e que se de certa forma, deixasse de ser Clarabella, não notariam a diferença ou talvez percebessem que as coisas haviam melhorado, mas jamais atribuiriam isto à inexistência dela, porque nunca fez nada que despertasse tanto a atenção para ela. Talvez se ela tivesse sido bailarina como a avó quisera, quando ela sumisse, alguém perceberia que ninguém mais ali dançava.
         Mas Clarabella não dançava, não cantava, pintava ou escrevia. Era ruim em tudo, até em ser ela mesma, tinha dificuldades. O pai dizia que era culpa da sua tamanha preguiça e desinteresse pelas artes da vida. Arte mesmo era viver. Viver sendo Clarabella.
         No mundo dela, nunca se ouviam interrogações, sempre interjeições.
         -Vamos Clarabella, traga logo isso. - -Clarabella, senta direito, olha a coluna, Clarabella!”- -Clarabella, não come isso, conta as calorias, Clarabella!- -Não me desagrade!- “Não faça manhã, não dê escândalo, olha o drama, Clarabella!-
         Ninguém nunca perguntava onde ela queria almoçar e qualquer dia desses, ela queria almoçar batata recheada, mas ninguém queria saber disso.
         Sua mãe a apelidou de “Monstra” e na frente de todo mundo, a chamava assim, porque a pobre coitada da menina,era diferente das outras meninas que queriam ser diferenciadas agindo da mesma maneira. Clarabella Monstra, por não seguir padrão, tornou-se aberração e por não sentar-se de pernas cruzadas sob o vestido rosa de seda, tornou-se exceção. Mas ser exceção só era bom se você fosse bela e ela estava mais para fera.
         Certo dia, ao acordar, percebeu que havia se tornado um terrível ser coberto de pelos esverdeados, com unhas enormes, sujas e duras e ela cheirava à esgoto. Clarabella respirou aliviada, pois não mais precisava fingir ser igual ou tentar ser bela.


not mine.

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